quinta-feira, 28 de maio de 2009

Professores versus professoraços


Existem bons e maus profissionais em todas as áreas de actividade, mas há umas em que o mau profissionalismo é mais chocante do que noutras. Dentre essas, pela sua gravidade, destaco uma em particular: os maus professores, ou melhor, os falsos professores.
Um verdadeiro professor é alguém sábio, inteligente, intelectual, erudito, com vastos conhecimentos, com enorme cultura, moralmente evoluido, digno, honrado, com carácter, com escrúpulos, com princípios, com valores. Em suma, um verdadeiro professor é alguém que tem realmente vocação para o cargo. 
Ora, os usurpadores que se mascaram de professores, além de não possuirem nenhuma destas capacidades, ainda denigrem o nobre ofício de professor. Esses farsantes julgam, na sua ignorância, que o simples facto de tirarem um curso transforma-os automaticamente em professores. Não compreendem todos os atributos que um professor tem que ter para exercer funções. Aliás, quando essa gente tira cursos superiores é para se tentar esconder atrás de estatutos socialmente importantes, tentando disfarçar o facto de na realidade não terem nenhum valor intrínseco. E depois, além da sua incompetência, esses pseudodocentes primam pela estupidez, uma vez que maltratam recorrente e sistematicamente os alunos de inúmeras formas. Demonstram, portanto, não só terem falta de aptidões, como também de humanismo. Muitos deles chegam ao ponto de, na sua má índole, tentarem influenciar negativamente os alunos e manipulá-los de acordo com os seus sórdidos interesses. Comportam-se como ditadores nas salas de aula, descarregando as suas frustrações em cima dos alunos. Têm medo de ser avaliados ou de serem de alguma maneira postos à prova, pois temem ser desmascarados e que se tornem evidentes as suas limitações. Como uma máfia, actuam muitas vezes sob a forma de um corporativismo retrógrado com tendências políticas perniciosas, embora com imensas guerrilhas internas, o que não é de admirar, tratando-se de quem se trata.
O título de professor é demasiado importante e prestigiante para que qualquer um o ostente. É preciso merecê-lo. O verdadeiros professores são uma elite minoritária que merece ser respeitada. Não podem ser confundidos com farsantes que vão para o ensino não para servirem, mas para se servirem. E pessoas que não gostam, não querem e não sabem trabalhar, não podem sequer estar numa escola, quanto mais ter a responsabilidade de lecionar. Até porque, só pode ensinar quem sabe.
No idioma inglês existe o termo "teacher" para designar os docentes até ao ensino secundário, e o termo "professor" para designar os professores universitários. Proponho que seja também adoptado um termo para designar quem, embora dê aulas, não seja verdadeiramente professor. Pesquisando no dicionário da língua portuguesa, descobri que essa palavra até já existe em português. Ela é: professoraço. Curiosa e ironicamente, surge logo abaixo da palavra professor.

sábado, 23 de maio de 2009

Os três filtros de Sócrates


Na Antiga Grécia, Sócrates tornou-se famoso pela sua sabedoria e pelo grande respeito que manifestava por todos. Um dia, veio ao encontro do filósofo um homem, seu conhecido, que lhe disse:
- Sabes o que me disseram de um teu amigo?
- Espera um pouco - respondeu Sócrates. Antes de me dizeres alguma coisa, queria que passasses por um pequeno exame. Chamo-lhe o exame do triplo filtro.
- Triplo filtro?
- Isso mesmo - continuou Sócrates. Antes de me falares sobre o meu amigo pode ser uma boa ideia filtrares três vezes o que me vais dizer. É por isso que lhe chamo o exame do triplo filtro. O primeiro filtro é a verdade. Estás bem seguro de que aquilo que me vais dizer é verdade?
- Não - disse o homem. Realmente só ouvi falar sobre isso e ...
- Bem! - disse Sócrates. Então, na realidade, não sabes se é verdadeiro ou falso. Agora deixa-me aplicar o segundo filtro, o filtro da bondade. O que me vais dizer sobre o meu amigo é uma coisa boa?
- Não, pelo contrário...
- Então queres dizer-me uma coisa má e que não estás seguro que seja verdadeira. Mas posso ainda ouvir-te porque falta um filtro, o da utilidade. Vai servir-me para alguma coisa saber aquilo que me vais dizer sobre o meu amigo?
- Não. Na verdade, não...
- Bem! - concluiu Sócrates. Se o que me queres dizer pode nem sequer ser verdadeiro, nem bom e nem me é útil, para quê contá-lo?

Fonte: Fé e Missão

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Alice no País das Maravilhas


- Gatinho inglês... - começou ela, um pouco tímida pois não tinha a certeza se ele iria gostar de ser tratado desse modo. O Gato deu um sorriso ainda mais largo.
"Ora vejam só! Parece que ele está a gostar." - pensou Alice, prosseguindo: 
- Poderias dizer-me, por favor, como é que eu faço para sair daqui?
- Isso depende muito de para onde pretendas ir - disse o Gato.
- Para mim tanto faz. Para onde quer que seja... - respondeu Alice.
- Então, pouco importa o caminho que tomes - disse o Gato.
- ... desde que eu chegue nalgum lugar... - acrescentou Alice, explicando-se melhor.
- Ah, então certamente chegarás lá... se andares bastante... - respondeu o Gato.

Lewis Carroll - Alice no País das Maravilhas

terça-feira, 19 de maio de 2009

Dom Sebastião


Sperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.

Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.

Fernando Pessoa - Mensagem

domingo, 17 de maio de 2009

Zen


Quando o Quinto Patriarca, Hongren (em japonês, Daiman Konin, 601-647), decidiu escolher quem o sucederia, propôs aos seus discípulos que tentassem captar a essência do Zen num poema. O autor do melhor poema seria o seu sucessor. Quando receberam a notícia, os monges já sabiam quem seria o vencedor: Shenxiu, o aluno mais antigo de Hongren. Ninguém se deu ao trabalho de competir com ele, apenas esperaram... Shexiu escreveu o seu poema e pendurou-o na parede:

"Este corpo é a árvore de Bodhi.
A alma é como um espelho brilhante.
Toma cuidado para que sempre esteja limpo,
não deixando o pó se acumular sobre ele".

Todos os monges gostaram. Com certeza Hongren também iria gostar. Entretanto, no dia seguinte havia outro poema pendurado ao lado, que alguém havia pregado durante a noite:

"Bodhi não é como uma árvore.
O espelho brilhante não brilha em parte alguma:
Se nada há desde o princípio,
Onde se acumula o pó?"

Os monges ficaram assombrados. Quem teria escrito aquilo? Depois de algum tempo, descobriram. O autor do poema era Huineng, o cozinheiro do mosteiro. E, percebendo a sua realização, foi a ele que Hongren estendeu o seu manto e a sua tigela, fazendo de Huineng o Sexto Patriarca.


Fonte: Wikipédia

sábado, 16 de maio de 2009

Depus a máscara


Depus a máscara e vi-me ao espelho. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

Fernando Pessoa (heterónimo: Álvaro de Campos)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Saiba que todas as coisas são assim


Saiba que todas as coisas são assim:
Uma miragem, um castelo de nuvens,
Um sonho, uma aparição,
Sem essência mas com qualidades que podem ser vistas.

Saiba que todas as coisas são assim:
Como a lua num céu brilhante
Em algum claro lago refletida,
Ainda que para aquele lago a lua jamais se moveu.

Saiba que todas as coisas são assim:
Como um eco que provém
Da música, sons e lamentos,
Embora nesse eco não haja melodia.

Saiba que todas as coisas são assim:
Como um mágico que fabrica ilusões
De cavalos, bois, carroças e outras coisas,
Nada é como parece.

Buddha

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Em defesa dos animais


"Os animais são nossos amigos!". Este era o lema de um popular concurso televisivo chamado "Arca de Noé", cujo tema eram justamente os animais. Todavia, o que assistimos sistematicamente é a um ataque feroz contra os animais. Esse ataque, perpetrado por gente ignorante e maléfica, acontece de inúmeras formas: nas touradas, nos circos, na caça, no comércio ilegal de animais e de produtos feitos à base deles, na escravatura de animais, em experiências científicas com animais, nas utilizações de animais como cobaias em testes farmacêuticos e de cosmética, no encarceramento de animais, na domesticação violenta de animais, nos abandonos de animais, nas torturas infligidas aos animais, nos assassinatos de animais... nos maus tratos generalizados contra animais. 
Quem maltrata animais é um ignóbil covarde, muito semelhante a um praticante de violência doméstica. É preciso ter muito cuidado com os agressores de animais, pois são gente perigosa. O facto de poderem aparentar um comportamento politicamente correcto na sociedade apenas demosntra a sua falsidade e hipocrisia, o que só os torna ainda mais desprezíveis. E quem retira um mórbido prazer de atrocidades exercidas sobre qualquer ser, é alguém anormal. Quem agride um animal, facilmente agride um humano, e se não o faz é por recear sofrer as consequências que não sofre agredindo animais; seja a nível jurídico, seja ao nível da possível retaliação das próprias vítimas.
Nenhuma pessoa de bem pode ficar indiferente ao sofrimento de seres indefesos, pois isso implicaria cumplicidade com os criminosos que os flagelam. Não podemos compactuar com as crueldades cometidas contra os animais consumindo produtos e serviços que resultam do seu sofrimento. É obrigação de todos nós zelar pelo bem estar e felicidade dos animais, protegê-los e ampará-los, ajudá-los e defendê-los. É preciso que estejamos vigilantes e sempre prontos a intervir, para pôr fim às injustiças que são cometidas contra os animais e para salvá-los.
Todos os seres estão neste mundo com um propósito. Tal como nós, humanos, também os animais estão aqui para cumprir a sua missão. É urgente uma mudança de mentalidades e de legislação, para o bem de todos os seres que habitam este planeta e para o bem do próprio planeta. 
Acompanhem e apoiem as iniciativas e acções de todas as associações de defesa dos animais, tanto a nível nacional como internacional. Destaque especial em Portugal para a Associação Animal: http://www.animal.org.pt/ .      

domingo, 10 de maio de 2009

Tibete


O Tibete é hoje uma província incorporada à República Popular da China, considerada por esta como região autónoma. Possui uma área de aproximadamente 1,2 milhões de quilómetros quadrados (com uma pequena parte, ainda a ser definida, de controle e domínio da Índia). Taiwan (República da China) também reivindica o domínio total da região.

Sobre a questão da soberania tibetana, o governo da República Popular da China e o governo do Tibete em exílio discordam quanto à legitimidade da sua incorporação pela China.

UNESCO e a Encyclopædia Britannica consideram o Tibete como parte da Ásia Central, enquanto outras organizações a vêem como parte do Sul Asiático.

O rei Songtsän Gampo uniu muitas partes da região durante o século VII. A partir do século XVII, os dalai lamas, conhecidos como chefes espirituais da região, têm sido os chefes administrativos do Tibete centralizado. Na religião tibetana os dalai lamas são tidos como emanações de Avalokiteśvara (Chenrezig, Wylie: [spyan ras gzigs] em tibetano), o bodisatva da compaixão.

Entre o século XVII e o ano de 1959 o Dalai Lama e seus regentes serviram como principais autoridades da província, tanto na política como na religião, dirigindo-a a partir da sua tradicional capital, Lassa.

Conhecido como o "tecto do mundo" por seus picos nevados, as montanhas do Tibete têm, em média, 4875 metros, com destaque para a cordilheira dos Himalaias.

A história do Tibete teve início há cerca de 2100 anos.

Em 127 a.C. uma dinastia militar fixou-se no vale de Yarlung e passou a comandar a região, perdurando-se esta situação por oito séculos. Por centenas de anos "belicistas" o Tibete investiu sobre terras vizinhas.

Este comportamento mudou em 617, quando o imperador Songtsen Gampo - 33º rei do Tibete – começou a transformar a civilização feudo-militar num império mais pacífico. O seu reinado durou até 701, e o seu legado foi imenso: criou o alfabeto tibetano; escreveu e estabeleceu o sistema legal tibetano (baseado no princípio moral segundo o qual é valorizada a protecção do meio-ambiente e da natureza); favoreceu o livre exercício religioso do budismo, e; construiu vários templos (dentre eles destacam-se o Jokhang e o Ramoche).

Os seus sucessores continuaram a transformação cultural, custeando traduções e criando instituições. O rei do Tibete que se seguiu foi Tride Tsukden (704 – 754), o qual deixou o seu filho como sucessor, o rei Trisong Detsen.

A partir do século VII a região tornou-se o centro do lamaísmoreligião baseada no budismo, transformando o país num poderoso reinado. Antigo objecto de cobiça dos chineses, no século XVII o Tibete é declarado incluído no território soberano da China. A partir daí seguem-se dois séculos de luta do Tibete pela independência, conquistada - temporariamente - em 1912.

Em 1950 o regime comunista da China ordena a invasão da região, que é anexada como província. A oposição tibetana é derrotada numa revolta armada em 1959. Como consequência, o 14° Dalai Lama, Tenzin Gyatso, líder espiritual e político tibetano, retira-se para o norte da Índia, onde instala em Dharamsala um governo de exílio.

Em setembro de 1965, contra a vontade popular de seus habitantes, o país torna-se região autónoma da China. Entre 1987 e 1989 tropas comunistas reprimem com violência qualquer manifestação contrária à sua presença. Há denúncias de violação dos direitos humanos pelos chineses, resultantes de uma política de genocídio cultural.

Em agosto de 1993 iniciam-se conversações entre representantes do Dalai Lama, laureado com o prémio Nobel da Paz em 1989, e os chineses, mas mostram-se infrutíferas. Em maio de 1995 é anunciado pelo Dalai Lama o novo Panchen LamaChoekyi Nyima, de 6 anos, o segundo na hierarquia religiosa do país. O governo de Pequim reage e afirma ter reconhecido Gyaincain Norbu, também de 6 anos, filho de um membro do Partido Comunista da China, como a verdadeira encarnação da alma do Panchen Lama.

Ugyen Tranley, o Karmapa Lama, terceiro mais importante líder budista tibetano, reconhecido tanto pelo governo da China como pelos tibetanos seguidores do Dalai Lama, foge do país em dezembro de 1999 e pede asilo à Índia. A China tenta negociar o seu retorno, mas Tranley, de catorze anos, critica a ocupação chinesa no Tibete.

A causa da independência do Tibete ganha força perante a opinião pública ocidental após o massacre de manifestantes pelo exército chinês na praça da Paz Celestial e a concessão do Prémio Nobel da Paz a Tenzin Gyatso, ambos em 1989. O Dalai Lama passa a ser recebido por chefes de Estado, o que provoca protestos entre os chineses. No início de 1999, o governo chinês lança uma campanha de difusão do ateísmo no Tibete. A fuga do Karmapa Lama causa embaraço à China.

O Tibete é, ainda hoje, considerado pela China como uma região autónoma chinesa (Xizang).

Fonte: Wikipédia

Nota: Este post é uma homenagem ao Tibete e ao povo tibetano. Espero que daqui a pouco tempo o conteúdo deste texto relativo à história mais recente do Tibete esteja desactualizado, no sentido de ter finalmente terminado a criminosa ocupação deste território por parte do criminoso regime comunista chinês. Que em breve o Tibete recupere a sua independência e o povo tibetano a sua liberdade.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Sangha


Sangha é o nome dado à comunidade buddhista, formada por monges, monjas, noviços, e, na maior parte das tradições, também pelos praticantes leigos.


A comunidade buddhista, tanto a leiga quanto a monástica, foi se expandido gradualmente. O Buddha delegou o ensino do Dharma aos monges que tinham alguma realização espiritual e capacidade de ensinar. Assim, grupos de monges recitadores, eram responsáveis por memorizar e ensinar determinadas porções dos ensinamentos.

 

Os primeiros monges eram andarilhos que vagueavam pelos reinos indianos a fim de difundir os ensinamentos de Buddha. Assim como os seguidores de outros mestres, os monges buddhistas viviam de maneira muito despojada e vestiam-se com mantos cor-de-açafrão. A única diferença é que eles rapavam a cabeça como sinal de renúncia à vaidade e não aceitavam alimentos crus porque não podiam cozinhar. A cada mês, reuniam-se para a cerimónia de upavasatha (páli: uposatha), que incluía uma confissão e a recitação dos votos monásticos.


Pouco tempo após o falecimento de Buddha, no ano 483 a.C., a comunidade monástica sentiu a necessidade de formalizar toda a doutrina, para que se mantivesse total fidelidade à mensagem original. Desse modo, realizou-se o primeiro concílio Buddhista (foram 4 no total).


Esse encontro reuniu, além dos 500 sacerdotes que mais se destacaram pelo conhecimento da doutrina, o discípulo Ananda, que dotado de memória prodigiosa, recitou todos os discursos de Buddha. Eles foram então compilados no Cesto de Discursos (sânsc. Sutra Pitaka). De maneira semelhante, o monge Upali, que era o responsável por rapar a cabeça dos monges antes da ordenação, teria sido questionado sobre as regras monásticas, e suas respostas foram então registadas no Cesto de Disciplinas (sânsc. Vinaya Pitaka). Os cestos dos discursos e das disciplinas, em conjunto com o Cesto do Ensinamento Superior (sânsc. Abhidharma Pitaka), formam o cânone buddhista, chamado Três Cestos (sânsc. Tripitaka)


Com o passar do tempo, diferentes interpretações a respeito dos ensinamentos foram sendo formuladas. Consequentemente, do segundo ao quarto concílio, várias escolas filosóficas se formaram.

 

Actualmente existem três delas: Theravada, Mahayana e Vajrayana.


Fonte: Budismo Simples

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Dharma


Pouco após a sua Iluminação, o Buddha ("O Iluminado" ou “O Desperto”), proferiu o seu primeiro discurso definindo a estrutura básica sobre a qual se baseariam todos os seus ensinamentos seguintes. Essa estrutura básica são as Quatro Nobres Verdades, quatro princípios fundamentais da natureza (Dharma) que emergiram da avaliação honesta e profunda que o Buddha fez da condição humana e que definem toda a abrangência da prática Budista. Essas verdades não são afirmações de fé. São na verdade, categorias nas quais podemos enquadrar nossa experiência de tal forma a criar condições para a Iluminação:

 

1- A Existência do Sofrimento 

 

2- A Causa do Sofrimento: o Apego

 

3- A Extinção do Sofrimento: a Eliminação do Apego

 

4- O Caminho que Leva à Extinção do Sofrimento: o Nobre Caminho Óctuplo, composto por entendimento correcto, pensamento correcto, linguagem correcta, ação correcta, modo de vida correcto, esforço correcto, atenção plena correcta e concentração correcta.

 

 

 A Existência do Sofrimento

 

Toda existência senciente implica em sofrimento (Duhkha). Por "sofrimento", devemos entender que, de uma forma essencial, todo ser está mergulhado em algum tipo de ignorância consciencial. Isso implica que a maioria dos seres humanos "sofrem" por não saberem lidar com a existência de forma equilibrada, seja nas experiências consideradas "prazerosas" ou nas consideradas "dolorosas". O sofrimento ignorante é fundamentado pela angústia da frustração egóica, que se prende a um sem-número de expectativas lineares e ilusoriamente permanentes. Portanto, nós seres humanos sofremos de uma "doença" psico-espiritual, de consciência, que nos leva a lidar com os contactos perceptivos de forma frustrante.

 

Há oito espécies de sofrimento: nascimento, velhice, doença, morte, contacto com o que detestamos, separação do que amamos, objectivos inalcançáveis e o sofrimento inerente ao apego aos cinco agregados (elementos psicofísicos: forma, sentimentos, percepção, constituintes mentais e consciência).

 

Colectivamente são chamados de numa (nome) e rupa (forma). Assim, o composto de nome-forma é um sinónimo dos cinco agregados. Tanto os agregados físicos como os mentais são caracterizados pela impermanência, sofrimento e não-eu.

 


A Causa do Sofrimento

 

O sofrimento ocorre pelo desejo ignorante (Trshna). Aqui temos a base de todo o processo ilusório no qual os seres sencientes estão presos. No plano humano, o desejo ignorante ocorre em função de um estado de delusão ou "não-sabedoria" (avidya). Esta condição é um estado natural nos seres em sua origem, mas que não é impossível de ser superada à medida que um ser humano esforça-se em direcção à reflexão.

 

O desejo pode ser classificado em três tipos, baseados nos três modos de identificação egóica: Apego (o desejo projectado como forma de anseio passional), Aversão (o desejo projectado como forma de rejeição odiosa) e a Indiferença (os apegos e aversões desviados repressivamente numa atitude de falso alheamento). A Verdade da Causa do Sofrimento: a palavra da Índia traduzida como "causa" significa "vir junto, formar-se conjuntamente e surgir, aparecer".

 

 

A Extinção do Sofrimento

 

É possível superar o sofrimento. Embora os processos racionais e sociais sejam muito viciantes e arraigados em nosso complexo psico-emocional, Buddha afirma que eles podem ser superados, e que uma forma nova de visão e percepção do mundo é possível. O Sutra define a Verdade da Extinção do Sofrimento como a eliminação dos apegos e o estado de Nirvana.

 

Sutras primitivos descrevem Nirvana como eliminação das máculas, extinção da ganância, raiva e ignorância. Neste contexto, a extinção do sofrimento é Nirvana.

 

 

O Caminho para a Extinção do Sofrimento: O Nobre Caminho Óctuplo

 

A última das Nobre Verdades contém a prescrição de como aliviar a nossa insatisfação e alcançar a eventual libertação, de uma vez por todas, desse ciclo de vida e morte (samsara) doloroso e desgastante ao qual – pela própria ignorância (avijja) das Quatro Nobres Verdades – estamos presos por tempos incontáveis. O Nobre Caminho Óctuplo oferece um guia prático e completo para o desenvolvimento mental de qualidades e habilidades benéficas que devem ser cultivadas se o praticante desejar alcançar o objectivo final, a liberdade e felicidade supremas, o Nirvana. Embora estudados individualmente cada aspecto faz parte de um todo orgânico e indivisível.

 

Ponto de Vista Correcto - sabedoria e compreensão das Quatro Verdades Nobres e da Origem Interdependente. Alguns consideram como Fé Correcta, para os de pouca experiência que ainda não adentraram o nível da sabedoria superior.

 

Pensamento Correcto - pensamento ou determinação que precede acção ou fala. Para uma pessoa ordenada é a prática do pensamento correcto através da mente cada vez mais gentil, compassionada e pura. Para os leigos é pensar correctamente sobre a sua situação e agir determinadamente de acordo.

 

Fala Correcta - surge do pensamento correcto. Não mentir, não usar linguagem pesada, não falar mal dos outros, não caluniar, não falar frivolamente e usar a fala beneficiando a todos e conduzindo à harmonia, pela ternura que nutre a todos os seres.

 

Acção Correcta - surge do pensamento correcto. Não matar, não roubar, não cometer adultério. É praticar boas acções como a de proteger e cuidar de todos os seres, observando os valores éticos.

 

Meio de Vida Correcto - conduta correcta na maneira de viver, de se manter, com hábitos regulares e saudáveis de dormir, comer, trabalhar, fazer exercícios, descansar. Viver de maneira a melhorar a saúde, ser mais eficiente e criar harmonia, eficiência e saúde para todos. Ter meios de vida que considerem outros seres, outras formas de vida, o respeito e dignidade próprios e dos outros presentes e passados, as futuras gerações, a sustentabilidade e a melhor qualidade da vida.

 

Esforço Correcto - dedicar-se constante e assíduamente ao caminho de obter os ideais de fé religiosa, ética, educação, política, economia e saúde; produzindo e aumentando o que é bom e prevenindo e eliminando o que é mau.

 

Atenção Correcta - manter-se atento garante que com a correcta consciência e percepção nunca sejam esquecidos os objectivos ideais de fazer o bem a todos os seres. Na vida diária é agir com cuidado e atenção, pois qualquer momento desatento pode causar um desastre. Do ponto de vista Budista tradicional significa manter constante atenção à impermanência, sofrimento, não-eu.

 

Concentração Correcta -  aqui a referência é aos Dhyanas ou estados meditativos. Manter a mente calma e concentrada para permitir a manifestação da sabedoria completa e verdadeira a partir da qual surgem os pensamentos e acções correctos. Manter a mente clara e brilhante em tranquila actividade.

 

Na prática, o Buddha ensinou o Nobre Caminho Óctuplo aos seus discípulos de acordo com um sistema de treino gradual, iniciando com o desenvolvimento de sila ou virtude (linguagem correcta, acção correcta e modo de vida correcto, que na prática estão resumidos nos cinco preceitos), seguido pelo desenvolvimento de samadhi ou concentração (esforço correcto, atenção plena correcta e concentração correcta), culminando com o pleno desenvolvimento de pañña ou sabedoria (entendimento correcto e pensamento correcto). A prática de dana (generosidade) serve como um apoio para cada passo ao longo do caminho, já que actua como um auxiliar na corrosão da tendência habitual ao desejo e também porque pode trazer grandes ensinamentos sobre as causas e resultados das acções de cada pessoa (kamma).

 

O progresso ao longo do caminho não segue uma trajectória linear simples. Em vez disso, o desenvolvimento de cada aspecto do Nobre Caminho Óctuplo encoraja o refinamento e fortalecimento dos demais, levando o praticante adiante numa espiral ascendente de maturidade espiritual que culmina na Iluminação.

 

Vendo por um outro ângulo, a longa jornada no caminho para a Iluminação tem início a sério com os primeiros sinais de alguma movimentação na questão do entendimento correcto, os primeiros lampejos de sabedoria através dos quais a pessoa reconhece tanto a validade da Primeira Nobre Verdade e a inevitabilidade da lei do kamma (sânscrito karma), a lei universal de causa e efeito. A partir do momento que a pessoa se dá conta de que más acções inevitavelmente trazem maus resultados e que boas acções trazem bons resultados, o desejo de viver uma vida moralmente correcta e íntegra, de adoptar seriamente a prática de sila, cresce. A confiança criada a partir desse entendimento preliminar leva o praticante a ter ainda mais fé nos ensinamentos. O praticante torna-se um "Budista" a partir do momento em que expressa uma determinação interior de "tomar o refúgio" na Jóia Tríplice: o Buddha (tanto o Buddha histórico como o potencial de cada um de alcançar a Iluminação), o Dharma (tanto os ensinamentos do Buddha histórico como a verdade última que eles revelam), e a Sangha (tanto a comunidade monástica que protegeu os ensinamentos e os colocou em prática desde os tempos do Buddha como todos aqueles que alcançaram algum grau de Iluminação). Tendo fincado firmemente os pés no solo através da tomada do refúgio e, com o auxílio de um bom amigo para ajudar a indicar o caminho, a pessoa estará pronta para trilhar o caminho, confiante de que estará seguindo as pegadas deixadas pelo próprio Buddha.

 

Algumas vezes o Budismo é ingenuamente criticado como uma religião ou filosofia negativa ou pessimista. Apesar de tudo (esse é o argumento utilizado) a vida não é somente miséria e desapontamento: ela oferece muitos tipos de alegria e felicidade. Porque existe então essa obsessão pessimista no Budismo com a falta de satisfação e o sofrimento?

 

O Buddha baseou os seus ensinamentos numa franca avaliação da nossa situação como seres humanos: existe falta de satisfação e sofrimento no mundo. Ninguém pode contestar esse facto. Se os ensinamentos do Buddha parassem por aí, os seus ensinamentos poderiam de facto ser considerados pessimistas e a vida totalmente sem esperança. 

 

Porém, como um médico que prescreve o remédio para uma enfermidade, o Buddha oferece a esperança (a Terceira Nobre Verdade) e a cura (a Quarta). Os ensinamentos do Buddha portanto permitem ter um alto grau de optimismo num mundo complexo, confuso e difícil. Um professor contemporâneo resumiu bem: "Budismo é a busca da felicidade levada a sério".

 

O Buddha alegava que a Iluminação que ele redescobriu está acessível a qualquer um que esteja disposto a fazer o esforço e comprometer-se a seguir o Nobre Caminho Óctuplo até ao fim. Cabe a cada um de nós colocar essa afirmação à prova.


Fonte: Budismo Simples